Tenho me olhado no espelho por tanto tempo que passei a
acreditar que minha alma estivesse do outro lado, fria e sem sentimentos.
Toda vez que tento tocar em meu reflexo, pequenos fragmentos
caem sobre chão, deixando meu reflexo distorcido. Fragmentos estes pequenos demais para serem
recolocados de volta em seu lugar, porem, grandes o suficiente para me fazer sangrar se
tentar toca-los.
Uma vez mais eu tentei e isso deixou minha imagem refletida ainda
mais distorcida e novamente tentei pegar os cacos frios sobre o chão.
Sangrei e, continuo a sangrar.
Qual é o verdadeiro eu?
O lado frio que se remete a mim, ou o eu que aqui estou, meio vivo e com um coração quase não mais batendo?
Já não mais me conheço, já não sei quem sou.
Cada um destes fragmentos leva consigo um pouco da minha
força, um pouco da minha vida e muito de mim...
Já não tenho mais forças, tudo parece cinza, tudo parece
gélido e meu coração, ahh meu coração... Como o maltratei.
Qual dos dois eu amo? Qual dos dois eu realmente sou?
De certo modo eu e meu reflexo estamos ligados, pois enquanto ele desaparece a cada toque eu
também deixo de existir lenta e dolorosamente.
Continuo a sangrar, pois desesperadamente tento pegar caco
por caco e recoloca-los em seus devidos lugares, porque sei que se
conseguir volto a ser o meu reflexo...
Volto a ser o que eu quero ver e não o
que realmente sou.
Mas todo esforço é em vão.
Nada mais pode ser
feito, nada mais tem sentido...
Continuo a observar me diante do espelho, já quase não consigo me ver do outro
lado... Minha alma realmente estaria
lá? Estaria ela se perdendo junto com meu reflexo? Não a sinto mais em mim e,
novamente pergunto a mim mesmo:
Quem sou, quem quero ser e por fim, a quem quero enganar???
Do outro lado do espelho parece ser mais fácil, pena ele
quase não existir mais...
Por tanto tempo me refugiei
ali e, por vezes de lá, eu também tocava em meu reflexo invertido , porém com
uma grande diferença... Lá não existia
sentimentos, lá não existia sangue, lá não existia lágrimas, lá não
existia dor, lá não existia... Eu.
Agora eu respiro, agora eu sinto, agora eu sangro, agora eu
choro, agora eu sofro e isso me faz
lembrar que isso tudo é quem sou , que isso tudo é bem real.
Já não me resta mais nada... Apenas esta dor cruel, apenas
pedaços de mim, quebrados pelo chão...
Do meu reflexo não existe quase nada...
Tentei toca-lo
novamente pela última vez e tudo se repetiu, mas desta
vez não restou nada deste espelho
e então percebi que chegou a hora em que de tanto toca-lo eu virei
apenas pequenos fragmentos frios pelo
chão e então eu não sentirei mais nada... Não sinto mais nada... Não mais respiro.